Nunca Direi que te amo

 

Soares Feitosa

 

 

Sem nenhum aviso, 
as sardas de um rosto, vieram as sardas 
e eram notícia de uma navegação morena; 
uma voz rouquenha, como se abafasse 
o grito súbito sobre este porto 
de nenhum aviso. 
Nunca lhe direi sobre o amor: jamais faria 
declaração de posse às minhas mãos; 
nenhum registro público hei de requerer 
sobre meus pés; nem protocolos mandarei abrir 
sobre meus braços; 
mandato algum darei sobre meus olhos: 
cega-me a crueldade desta posse. 
De que haveria de falar, se a voz 
me some nos contrastes deste aviso súbito? 
Os segredos, 
não os desvendarei — 
as mãos, a voz, este "sim" — 
porque 
Ela, 
subitamente a tua voz morena: 
a flor, o vinho. 


Fortaleza, noite alta, 3 de outubro de 1999.

 

Midi do filme: "Anônimo Veneziano"

 

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