Não lavei os seios 
pois tinham o calor 
da tua mão. 
Não lavei as mãos
pois tinham os sons 
do teu corpo.
Não lavei o corpo
pois tinha os rastros 
dos teus gestos;
tinha também, o meu corpo, 
a sagrada profanação
do teu olhar 
que não lavei.
Nem aqueles lençóis,
não os lavei, 
nem os espelhos,
que continuam 
onde sempre estiveram:
porque eles nos viram 
cúmplices, e a paixão,
no paraíso, 
parece que era.
Lavei, sim, 
lavei e perfumei 
a alma, em jasmim,
que é tua, só tua, 
para te esperar
como se nunca tivesses ido 
a nenhum lugar:
donde apaguei 
todas as ausências
que apaguei 
ao teu olhar. 


Salvador, madrugada alta, 6.10.95

(Este poemeto, no modo mulher, é uma variante - e homenagem - poema Lembranças, de Angela Schaun) 

JP - Jornal da Poesia

 

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