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E eu... que me guardei dentro
do meu anoitecer
Eu que só queria esquecer
Eu que já havia secado como um
lago que altera a sua natureza
Eu que já havia estagnado como
um rio que perde a correnteza...
Mas então você chegou...
Me trazendo de volta
o prazer de fazer amor
Me tocando, roçando,
seduzindo, se entregando
Me derretendo a cada olhar
Me fazendo descongelar
E eu...que menti tanto
tempo a mim mesma
Que meu corpo só conseguiria
viver na frieza
Que o iceberg gelado que
havia me aprisionado
Nunca mais haveria de
ser quebrado...
Descobri então um vulcão
Adormecido, quente, escondido
e ardente
Inflamei finalmente
E meu sexo que andava doente
Amanheceu novamente
Abri as comportas
Me lancei nessas águas
Liberei a represa de uma
vida amargurada
Quis nessa investida
morrer afogada
Virei corredeira com a pressa
de uma vida inteira
Numa velocidade estonteante
Desaguando....sorrindo e chorando
Gritando....gemendo e sonhando
Fui sedenta
Fui terna e violenta
Fui vendaval
Depois fui temporal
Fui chuva de verão
No inverno a inundação
Na primavera gotejei
No outono, num córrego
me transformei
E eu...que andei perdida na
seca da minha vida
No deserto do incerto
Por certo não sabia
Que em mim, uma mina existia
E uma fonte no final do horizonte
E que muita água, dela ainda brotaria
Que em mares eu ainda navegaria
Que em oceanos eu ainda nadaria
E eu...me fiz cachoeira ao
primeiro toque seu
Me transformei em goteira
quando seu corpo foi meu
Fui córrego sem destino
E naufraguei quando senti
você partindo
Me fiz a escrava de um lago insano
Volumoso e profano
Me fiz a sereia de um mar agitado
Num instante nunca antes imaginado
E eu...que achei que esse dia
não mais aconteceria
Transformei esse momento
Em ilusão e magia
Em partida da minha agonia
Em chegada da minha euforia
E eu....louca, agitada
Extasiei-me mil vezes
nas suas chegadas
Perdi-me em desejos
Alucinei-me aos seus beijos
E eu...que despi-me com medos
Cheia de receios de
experimentar pesadelos
Acabei vivendo sonhos
envoltos em molduras
De fogo, paixão e loucuras
E fiz poesia de mim
E aconteceu tudo assim...
Tudo molhado...encharcado...alagado
Deixando rastros por todos os lados
E eu...que abri minhas torneiras
Que estiveram fechadas
uma vida inteira
Agora vivo do meu passado
molhado
E esse rio que criou correntes
Que procura sua nascente
Não aceita mais congelar
E seu leito não consegue achar
Flutuo nele a espera de
você voltar
Preciso...quero...lhe espero...
Pra de novo desaguar
Meu mar agora aberto está incerto
Não controla mais a altura das ondas
Não quer mais viver de marolas
Quer ressaca a toda hora
E eu....que há tempos vivia a secar
Que não reconhecia mais
o ruído do mar
Procuro o seu balanço novamente
Eu.....que agora já aprendi a nadar
Quero outro maremoto enfrentar.
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