Quando era criança, quase adolescente,ia pra casa dos meus tios lá no interior... era longe, naquela época e para mim, demorava para chegar. Mas, era uma festa!

O carro... meu pai tinha um trabalhão! Só lembro que era um Aero Willis azul, não lembro o ano. 

 E minha mãe às voltas com tudo. E prepara o lanche, a  mala, os presentes... 

Sim,  sempre tinha de levar algum presente, já que não dava para levar a comida para um mês - minha mãe faz isso até hoje quando vai à casa de alguém -   e a gente, correndo em volta.

A estrada... o verde! Que delícia de cheiro  de mato,   de natureza, de terra molhada!

O som da mata na estrada, a velocidade dos carros... e meu tio Giorgioni, um italiano loiríssimo e de olhos azuis, xingando cada fusca que ultrapassava seu Chevrolet enorme e verde.

- Pagliaccio! Quero ver se me pega na subida! - lá ia ele  xingando a estrada inteira assim.

E nós  ríamos dos seus gestos lá do nosso carro, porque já sabíamos  que ele dizia, era sempre a mesma coisa.

Como me fascinava a viagem. Ficava encantada a cada curva e, mesmo conhecendo os lugares, tudo parecia diferente, a cada vez que íamos.

Ríamos de qualquer coisa, às vezes, cantando ou brigando com o irmão... lá vinha  bronca de montão! 

Sempre fui muito moleca e vivia me ralando toda... andava de carrinho de rolimã, assim como brincava de  bonecas, não fazia diferença para mim,  me divertia com tudo.

Mas, o que mais gostava, era ir almoçar na  casa da minha tia Carmela... lá tinha fogão de lenha!!!

Enquanto ela fazia a comida, ajudávamos a arrumar a mesa e brincávamos a maior parte do tempo lá fora... e o cheiro???

Ah! o cheiro de feijão... que borbulhante na panela de ferro, inundava todos os recantos da imensa cozinha, sorrateiramente indo até o quintal onde brincávamos.

À tardinha, lá vinha ela... inventava e todo mundo entrava na dança. Eram os doces de mamão-verde, de abóbora, canjica e pamonha.

Uma verdadeira festa gastronômica  e, além disso,  não havia despesa pois,  tudo vinha dali mesmo: o milho, a abóbora o mamão...e haja gente para ralar tudo.

Enquanto isso, a chaleira enorme, de ferro,  ia logo para o fogão, mais lenha, fumaça... e um cafezinho, moído na hora,  com bolo de fubá ou de milho, que sempre tinha no armário. 

Era realmente uma festa diária, onde ouvíamos histórias da nossa família de imigrantes italianos, da noninha e do nono; Luici Gracie Dio mas, que chegando ao Brasil e cansado de ouvir "graças a Deus" em seu nome, o trocou por Fávaro -era permitido naquela época.

À noite,  eram os bailinhos, o passeio na praça, na lanchonete "Al di la" e a paquera... que inocência, uma verdadeira delícia!

Juntávamos todos no clube, e ao olhar ao redor, pude reconhecer um a um  e quase a cidade inteira eram meus parentes. Entre netos,  bisnetos, primos, tios e terceiros,  agregados ou não, eram todos descendentes do Luicci Gracie Dio, que não adiantava quantos anos passassem e apesar de chamarmos hoje, Fávaro, não deixamos de ser   "Tutti buona gente, Graccie Dio".

 

Tela de Romy Bastos e design by Itajaci.

 

 

 

 

 

 

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