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Carlos Gama.

 

De minha cadeira de balanço, na penumbra da sala silenciosa, ouço os motores das balsas na travessia e, vez ou outra, o som esparso do apito de algum notívago navio que chega ao porto, na esperança de um berço que o acolha. O olhar se alonga, observando as luzes da cidade - no outro lado do canal - que em vários tons tremeluzem, meio tímidas, por entre a bruma fantasmagórica da noite invernal.
A visão penetra, a mente divaga por entre as lâmpadas nos postes, nas casas espraiadas à beira mar, e prossegue morro acima, caminhando vagarosamente, pressentindo o odor do mundo humano, pretendendo ouvir os seus suspiros, suas vozes e até algum choramingar quase silente.
Interessantes contrastes a notar: "quem está por cima", mora mais embaixo e "quem está por baixo", mora mais acima. Quase todos, porém, vivem, sobrevivem, sonhando e lutando.
Mas é nas noites que, com mais intensidade, as penetrantes sensações de amor e ódio permeiam a alma das cidades.
Penosa e dura é a vida de quem não mais sonha, não anseia e não se ilude, pois crê que a vida é uma, e não há o que a mude. É o vegetar daquele que acaba sob as pontes, as marquises ou sob os macetes de quem perdeu a alma para o demo, esse habitante das profundezas e da escuridão, nos recônditos da alma humana...

Ah! Quão tristes...

Ah! Quão trastes...

06 de setembro de 2004 - 01:57 h

 

 

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