Às vezes eu encontrava comigo mesmo, no meio da tarde, no centro da cidade, e me convidava pra tomar um chopp num bar à beira-mar, em pleno planalto central. Relutava em aceitar convites assim tão cretinos, mas inexplicavelmente dava os braços pra'quele menino, num misto de excitação e perplexidade. Eu no centro da cidade, com tanta coisa por fazer, sentado comigo mesmo, a beber.
Ouvia-me falar do tempo, misturando no temperamento jeans com cetim. A boca grande, alguns rompantes de criança, rindo do meu próprio dia a dia, eu vivendo assim. E sem ironia me deixava falar, com os olhos quentes latejando em mim.
Abatia sem dificuldades os problemas que eu entornava e novamente sorria sem me ferir, deixando-me perceber que sequer tinha idéia de qual caminho seguir. 
E ficava ali, eu comigo mesmo, sem levar susto quando ia e vinha, me metamorfoseando num velho, num pássaro, numa rainha, fazendo-me acordar no outro dia numa bruta ressaca pra ir trabalhar, mas com saudades, com uma imensa saudade do mar.

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