Durante anos Maria Alice nutrira aquela história de "amor de vidas passadas". Começou quando, em plena juventude, esfuziante de beleza, animação e sensualidade, conhecera Marcus, em uma viagem ao Nordeste. Ele era de lá. 

Curtiram um romance caliente. Era areia de praia nas roupas, era cheiro de amor em tudo que tocavam... coisa de doido! 

Os anos voaram. Ela casou, tinha uma vida calma, dois filhos, boa situação financeira, enfim nada a reclamar, porém uma idéia se cristalizara em sua alma: o tal "amor de vidas passadas"... Nunca esquecera Marcus. E para ela só havia essa explicação. 

Há cerca de duas semanas, foi designada, pela firma para a qual presta serviço, para ir exatamente à cidade onde reside Marcus. Teria um contrato para assinar. Nunca mais havia falado com ele, mas mantinha contato com os amigos daquela época, e dessa forma conseguiu o telefone com facilidade.

Assim que chegou, ligou imediatamente. Cheia de ansiedade. O que pensaria ao vê-la? Ainda a olharia com aquela expressão "canibalesca"? Um frio percorria seu corpo. Um arrepio eriçava seus pêlos. E se aquela atração ainda perdurasse? Ela trairia o marido, tinha certeza. Não se furtaria a experimentar tudo de novo. Renasceria. 

Chegando ao local do encontro, um restaurante à beira-mar, admirou-se. Ele tinha a mesma jovialidade, estava apenas um pouco mais gordo. Conversaram com a mesma desenvoltura de antes, mas não pintava nenhum clima, tudo muito normal. Ela olhava-o, ensaiava o tom de voz mentalmente, o sorriso, o joguinho de sedução... afinal, havia feito até clareamento dental! Ele a olhava, logicamente admirando sua beleza, mas sem o antigo olhar "canibalesco". E começou a beber... Bebeu até que começou a falar com aquela voz pastosa. Ela nada entendia... estava desconcertada. 

Quando ele entregou um cartão com o telefone dele, ela não resistiu. Era demais! Coisa surreal! Sequer lembrava que ela já havia ligado, caso contrário como estariam ali? Que vontade de gritar! Não podia ser real, tinha que ser um pesadelo tudo aquilo. 

Levantou-se, disse que ia ao toalete e saiu... Respirou fundo. 

Percorrendo a orla, chorou, com raiva incontida, lembrando os anos que havia passado, curtindo com tanto fervor aquela idéia de "amor de vidas passadas."

 

 

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